NUTRIÇÃO

 

 

Um dos requisitos essenciais para lograr a manutenção e o desenvolvimento dos bonsai é a nutrição. Quando se faz referência aos nutrientes do solo referimo-nos aos componentes minerais e orgânicos que este contem e que podem ser aproveitados e absorvidos pelas raízes da planta. Na Natureza trata-se de um conjunto de elementos proporcionados pela terra e os restos de matéria viva depositada na superfície do solo que, juntos tornam possível o crescimento, a floração e a reprodução de espécies vegetais.

O Porquê da Nutrição ?

Muitas plantas ornamentais cultivadas em vaso, podem manter-se de uma temporada a outra com a simples substituição do composto. No entanto, no caso concreto dos bonsai tal não chega a ser suficiente. A delgada camada de terra que o vaso pode suportar e as necessidades do exemplar, obrigam o cultivador a substituir a Natureza e manter o ciclo da vida regenerando os nutrientes que se esgotam no solo.

É fundamental perceber como é que as plantas funcionam e o que precisam para viver. A nutrição não deve ser vista como um tema isolado. Diríamos que nutrir um bonsai significa alimentá-lo e não basta apenas dar-lhe esse alimento, é preciso saber como o alimentar. Ter uma planta forte, bem nutrida, bem localizada, correctamente transplantada nas épocas adequadas e com o solo apropriado conduz a uma redução drástica dos problemas relacionados com doenças nomeadamente fungos e pragas.

 

Os Grupos de Nutrientes

  A nutrição resume-se a dois grandes tipos de nutrientes: os adubos ou fertilizantes e os fortificantes. Complementam-se mas não se substituem. Os fortificantes englobam as vitaminas, aminoáciodos, derivados de algas, hormonas, enzimas entre outros. Hoje em dia já existem bastantes estudos sobre os mecanismos químicos e biológicos do funcionamento das plantas e os benefícios das relações simbióticas destas com os fungos (por exemplo o caso das micorrizas dos pinheiros). Além da nutrição básica já se praticam, em resultado desses estudos científicos, formas de fortalecer as plantas facilitando-lhes a vida uma vez que vivem num espaço tão reduzido.

 

Os Tipos de Nutrientes

Para abordar o tema dos adubos temos de dividi-los em três grupos: macronutrientes principais, macronutrientes secundários e micronutrientes.

Recorrendo à definição agrícola, os macronutrientes principais são aqueles que são necessários fornecer em grandes quantidades, caso contrário a planta não irá desenvolver-se bem, sofrendo com a sua carência. São o Azoto, o Fósforo e o Potássio.

Os macronutrientes secundários são consumidos em menores quantidades que os anteriores mas são igualmente importantes. Temos o Magnésio, Cálcio, Enxofre e o Sódio.

Nos micronutrientes o consumo faz-se em pequenas quantidades mas a sua carência provoca o aparecimento de cloroses (folhas amareladas) e a dificuldade de assimilação dos restantes nutrientes entre outros problemas. Temos o Ferro, Manganês, Cobre, Zinco, Boro, Molibdénio, Cobalto e Iodo.

 

O Macronutriente Principal Azoto (N)

Os três macronutrientes principais são os que têm funções mais diferenciadas. No caso do Azoto ele tem algumas funções bastante bem definidas sendo a principal a estimulação do crescimento vegetativo da planta, responsável pela criação de massa verde. O Azoto apresenta-se sobre três fórmulas: eléctrica (não ureica), amoniacal e nítrica que essencialmente se referem à forma como a planta consegue assimilar esse nutriente. Se um determinado adubo indicar que contém um N de 10 significa que contém 10% de Azoto. Se for mencionado mais detalhe poderá ler-se por exemplo que esse Azoto é repartido em 5% de amoniacal e 5% de nítrico.

A forma nítrica do Azoto é aquela que é assimilada mais rapidamente ao contrário da forma amoniacal que necessita de algum tempo para ser transformada até ser consumida pela planta. O nítrico além de ser aquele que a planta assimila com mais facilidade é também o mais facilmente lavável, ou seja, à medida que regamos vai sendo eliminado do solo. Se optarmos por adubos só com fórmulas nítricas de Azoto é importante usar em pequenas quantidades com maior regularidade, derivado da rápida absorção. A vantagem de utilizar um fertilizante com mais de uma fórmula de Azoto é a maior durabilidade do nutriente tendo em conta o processo de absorção.

 

O Macronutriente Principal Fósforo (P)

O Fósforo é conhecido pelo adubo das raízes. Ele estimula realmente o sistema radicular e em bonsai desnecessário será dizer o quão importante são as raízes que vivem num espaço bastante reduzido. É típico plantas com carências de fósforo apresentarem sistemas radiculares muito frágeis.

O Fósforo entra no processo de lenhificação dos tecidos. Ele ajuda as células a passarem da forma herbácea a lenhosa. No Outono é fulcral a presença deste nutriente para enrijecer os tecidos para a planta poder sobreviver aos rigores do Inverno. Outro papel do Fósforo é controlar o processo de floração e frutificação das plantas.

Os nutrientes podem apresentar-se de diferentes formas e com diferentes formulações. Ainda relativamente ao Fósforo ao apresentar-se sob a forma de ião fosfito normalmente consorciado com o Potássio, além das suas funções principais, juntos produzem uma acção preventiva contra determinados fungos.

 

O Macronutriente Principal Potássio (K)

O Potássio estimula o processo de floração e frutificação que por sua vez desenvolvem também as defesas naturais da planta. Quando o objectivo é obter, por exemplo, uma boa floração numa azálea, ou uma macieira com o bom desenvolvimento das suas maçãs, não podemos descurar o Potássio no período de formação das flores e frutos bem como no Outono anterior para que a planta armazene reservas deste nutriente que lhe irão ser fundamentais no início da Primavera.

 

Micronutrientes

Os micronutrientes deverão ser disponibilizados aos bonsai em pequenas quantidades mas deverão estar sempre presentes em qualquer plano nutricional. Um dos micronutrientes mais importantes e cuja carência mais rapidamente se detecta é o Ferro. O diagnóstico é fácil observando-se folhas amareladas, sem vigor e com falta de brilho. Vê-se a estrutura de uma folha com a sua ramificação verde (como se fosse uma espinha) e tudo o resto amarelo. Trata-se de carência de ferro e é particularmente sensível nalgumas espécies como os citrinos e os buxus.

Uma das funções do ferro é a formação da clorofila (que dá o verde às plantas) e sem ela a planta não processaria os nutrientes mesmo que os tivesse disponíveis.

Existem espécies em que o magnésio tem mais importância, noutras o boro, etc. Importante será dizer que a presença de micronutrientes facilita a assimilação de outros nutrientes, facilita determinados processos químicos dentro da própria planta e finalmente muitos deles acabam por ter um papel preventivo. Devem-se dar às plantas adubos que tenham micronutrientes e nalgumas espécies se façam reforços extra incluindo o ferro.

É importante também conhecer a fórmula como os micronutrientes se apresentam. Por vezes movidas por questões de custo, algumas pessoas optam por micronutrientes ou adubos sob uma fórmula de baixa assimilação. A melhor forma de utilizar micronutrientes é sob a fórmula de quelatos, ou seja, apresentam-se de maneira a poderem ser consumidos de imediato e não vão ser facilmente neutralizáveis pelo solo.

 

Os adubos quanto à sua composição

Podem ser simples com um único nutriente, por exemplo o micronutriente Ferro. São preparados em laboratório. Podem ser compostos, ter vários nutrientes, por exemplo o Fósforo e o Potássio (PK), No caso de adubos completos contém macronutrientes principais, alguns secundários e micronutrientes.

 

Os adubos quanto à sua origem

Quanto à sua origem podem ser químicos quando a sua produção e obtenção isolada só se consegue de forma artificial em laboratório. Quando a sua origem é orgânica tratam-se de adubos que provêm de derivados de produtos naturais como estrumes, algas, farinhas de ossos, etc.

Os adubos químicos são mais baratos e usados para determinados propósitos. Podem ser usados por exemplo em pré-bonsai em formação. Em bonsai já formados o adequado será recorrer a um adubo orgânico completo.

Existem determinados microorganismos que decompõem os nutrientes e que interagem com a planta. Um exemplo típico onde se utilizam os adubos orgânicos são os pinheiros porque não destroem a relação simbiótica existente (relação benéfica) com os fungos micorrízicos. Um adubo químico com alto índice de azoto ou fósforo iria inibir o desenvolvimento da micorriza.

 

Os adubos quanto à sua apresentação

Quer a sua origem, seja química ou orgânica, podem apresentar-se de forma líquida para aplicação na água da rega e/ou adubação foliar, sólida, granulados e em pó.

Ao comprar um adubo convém saber interpretar o rótulo na embalagem e se possível já ter em mente o que se pretende mesmo antes de adquirir o primeiro produto que se nos depara. Qualquer adubo terá a descrição dos macronutrientes principais (Azoto, Fósforo e Potássio) conhecidos pelas siglas NPK. Ao ler NPK 5-3-3 significa que tem 5% de Azoto, 3% de Fósforo e 3% de Potássio. No caso de alguns fertilizantes agrícolas apenas referem os números como por exemplo 5-8-10. Mesmo omitindo as letras já sabemos que neste caso continha 5% de Azoto, 8% de Fósforo e 10% de Potássio. Com maiores concentrações dos últimos dois nutrientes facilmente concluiríamos que seria um adubo para aplicar antes dos botões das flores de uma azálea abrirem ou durante a formação de frutos (maçãs, ameixas, cerejas, etc.).

É importante também ler e certificarmo-nos quais os macronutrientes secundários e micronutrientes presentes no adubo que estamos a adquirir. Quanto ao Azoto verificarmos qual a percentagem de azoto nítrico e amoniacal para sabermos a longevidade após a sua aplicação. No caso dos micronutrientes preferirmos aqueles que já se encontram sob a forma de quelatos. Por fim temos de respeitar as doses indicadas e a frequência de utilização.

Quando se tratam de adubos não específicos para bonsai é sempre preferível utilizá-los com prudência, tendo em conta que todas as instruções se orientam para propósitos distintos como é o caso da produção em massa de frutas e hortícolas. Se por exemplo um agricultor ao aplicar um determinado produto no seu pomar lhe der excelentes frutos mas deixar as folhas das árvores com mau aspecto, para ele esse ponto pesará pouco na sua decisão perante esse fertilizante ou fitossanitário. Em bonsai interessa-nos tanto o fruto como a folha em excelentes condições. Portanto, ao utilizar produtos não específicos para bonsai é prudente utilizá-los nas doses mínimas ou por metade da dose indicada, como salvaguarda.

 

A Fertilização, o solo e a rega

Para a boa saúde do bonsai já sabemos que é importante ter um plano de adubação completo e sabe-se que para assimilar os nutrientes a planta efectua trocas com o solo e, muitas vezes, não consegue assimilar nem transformar certos nutrientes na ausência de outros.

O extremo oposto com a aplicação de adubos em doses excessivas conduz à chamada salinidade do solo, resultando no facto da planta deixar de conseguir assimilar nutrientes consequência da sobrecarga deles no solo. A condutividade (carga eléctrica) do solo aumenta, a planta deixa de conseguir captar o seu alimento e começa ela própria a libertar água na tentativa de eliminar e diluir no solo o excesso de nutrientes (o chamado processo de osmose inversa). A consequência final será a morte por sede num bonsai que aparentemente nos pareceu bem regado e bem adubado. Importante será utilizar planos de adubação completos, com adubos de boa qualidade e nas doses e intervalos de aplicação recomendados.

Uma das coisas importantes é regar o bonsai com uma água de boa qualidade, idealmente água da chuva. No entanto, a água da rede pública é bem tolerada desde que se deixe repousar pelo menos 24 horas por forma a que se dê uma certa sedimentação de sais e a evaporação do cloro. Se a água contribuir para o aumento do PH do solo, tornando-o mais calcário o bonsai começa a ter dificuldades em assimilar os nutrientes que vão sendo neutralizados (o Ferro é um dos primeiros). Parece-nos que a planta estará bem nutrida quando na realidade diminui ou chega mesmo a parar a assimilação de nutrientes.

 

Os Fortificantes (Vitaminas e Aminoácidos)

Embora englobados na nutrição, os fortificantes não são substitutos dos adubos. No entanto devem ser incluídos nos planos de nutrição especialmente em determinadas situações / épocas.

Os seres humanos só conseguem as vitaminas ingerindo-as já que não são capazes de as produzir. Ao contrário, as plantas têm essa capacidade de transformar e sintetizar vitaminas a partir dos nutrientes que ingerem. A função de alguns fortificantes é facilitar a divisão celular. Numa planta debilitada as suas células não se dividem, logo não cresce. Um exemplo de um fortificante é a tiamina (vitamina B1) que facilita a recuperação e os processos de crescimento. Se uma planta estiver saudável ao disponibilizarmos-lhe vitaminas e aminoácidos facilitamo-lhe o crescimento e poupamo-lhe a energia que ela gastaria para os produzir. Se estiver debilitada facilitamo-lhe a recuperação. Em resumo os fortificantes facilitam a divisão celular, facilitam o processo natural de crescimento, a recuperação de uma praga, de um fungo, da debilidade causada por excesso ou falta de água, falta de luz e debilidade do pós-transplante.

As vitaminas não criam dependência nem matam bonsai por utilização em excesso. Poderão ser utilizadas todo o ano mas há quem prefira usar apenas em certos momentos, especialmente aqueles em que é mais justificável. Por exemplo para os bonsai de folha caduca no momento em que estão sem folhas não fará sentido dar vitaminas uma vez que a planta está em dormência e não assimilará nada.

Sem vitaminas os bonsai não morrem. Sem água e sem adubos ai sim é que não sobrevivem, no entanto o uso de vitaminas faz com que vivam melhor.

 

Como aplicar os nutrientes, em que épocas e intervalos de segurança

Se utilizarmos um adubo sólido da marca "Biogold" ou similar deveremos espalhar pelo vaso o número de pastilhas recomendadas. Com as sucessivas regas elas vão-se desfazendo, permitindo uma libertação lenta e controlada. Ao fim de um mês caso existam restos deverão ser removidos e deverá ser reposto o mesmo número de pastilhas.

Nos adubos líquidos e vitaminas a aplicação pode ser feita na rega ou por pulverização foliar. Em qualquer dessas duas situações a planta deve ser bem regada umas horas antes. Caso os adubos e as vitaminas sejam aplicados num momento em que o bonsai esteja com sede, nessa rega poderão ser assimilados em dose superior à que a planta necessita.

Podem ser feitos planos de nutrição que incluam um adubo orgânico sólido (tipo Biogold) e um adubo líquido. Neste caso reduz-se o adubo líquido para metade da dose e pode ser aplicado nas folhas permitindo uma assimilação rápida, mas pode ser também utilizado no solo através da rega.

Os adubos líquidos e vitaminas devem ser preparados no momento da utilização, diluídos em água. Não se deve guardar um desses preparados já que nessa situação o produto degradar-se-ia e perderia as suas qualidades. Os adubos e vitaminas devem ser guardados em local fresco, seco e ao abrigo da luz solar.

Marcas que não sejam específicas para bonsai devem ser usadas, por precaução, a metade das doses recomendadas.

Regras de segurança: para a aplicação de diferentes produtos de nutrição é necessário aguardar pelo menos 48 horas. Não atender a esta regra conduz a que se produza uma reacção química que neutraliza os diferentes produtos e o bonsai acaba por não assimilar nenhum deles. A aplicação de produtos de nutrição versus produtos fitossanitários implica uma separação de 5 dias (nunca menos de 3) entre eles.

Em plantas débeis param-se de imediato todos os produtos de nutrição à excepção das vitaminas cuja dose é aumentada. Após ser fortalecida e quando a sua recuperação for evidente, com sinais de crescimento generalizado, pode-se voltar a adubar.

 

Épocas para adubar:

Bonsai de exterior (de folha caduca): de Fevereiro a final de Setembro com paragem em Julho e Agosto. Utilizar adubos completos e vitaminas. Os meses de Julho e Agosto e de Outubro a Janeiro correspondem a períodos de inactividade pelo que seria inútil dar nutrientes que pura e simplesmente não seriam absorvidos e que poderiam salinizar o solo com as consequências já descritas neste artigo.

Bonsai de exterior/dupla localização (de folha persistente): de Fevereiro a meados de Outubro com paragem em Julho e Agosto. Utilizar adubos completos e vitaminas.

Bonsai de interior: de Fevereiro a Novembro com adubos completos e vitaminas o ano inteiro. Os bonsai de interior não param de crescer mas em Dezembro e Janeiro reduzem a sua actividade pelo que as vitaminas serão úteis nessa altura.

Os reforços com Fósforo, Potássio e os micronutrientes devem ser aplicados de Fevereiro a Outubro.

 

Artigo elaborado com base na palestra sobre "Nutrição e Fitossanidade"

dada por Jorge Mendes Silva na II Exposição do Grupo Bonsai de Leiria

em 5 de Junho de 2005 no Posto de Turismo de Leiria.

 

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Cláudio Miguel

 

 

Associação Lusitana de Bonsai